Luís Carlos, conhecido posteriormente como Luís XVII, foi o segundo filho homem de Maria Antonieta e do rei Luís XVI, e sua curta vida esteve diretamente ligada aos acontecimentos mais dramáticos da Revolução Francesa. Ele nasceu em 27 de março de 1785, no Palácio de Versalhes, recebendo o título de duque da Normandia. Como filho do casal real, cresceu cercado pelo luxo e pelos privilégios da corte, mas sua infância seria brutalmente interrompida pela Revolução de 1789. Seu irmão mais velho, Luís José, que era o herdeiro direto da coroa, morreu em 1789, aos sete anos, vítima de uma doença óssea. Com isso, Luís Carlos tornou-se o delfim da França, passando a ser o segundo na linha sucessória. Quando seu pai foi executado em janeiro de 1793, os monarquistas passaram a considerá-lo rei da França, sob o nome de Luís XVII, embora ele jamais tivesse efetivamente governado. A partir daquele momento, sua existência tornou-se uma questão política, pois sua simples presença representava, para os partidários da monarquia, a continuidade da dinastia Bourbon.
Depois da queda definitiva da monarquia, a família real foi encarcerada na Torre do Templo, uma antiga fortaleza medieval localizada em Paris. Luís Carlos inicialmente permaneceu junto de sua mãe, Maria Antonieta, de sua irmã Maria Teresa Carlota e de sua tia, Madame Isabel. Para a criança, entretanto, a vida na prisão foi profundamente diferente daquela que havia conhecido em Versalhes. Ele perdeu progressivamente os contatos com o mundo exterior, enquanto seus pais enfrentavam julgamentos e acusações políticas. Maria Antonieta foi separada do filho em julho de 1793, quando os revolucionários decidiram colocá-lo sob os cuidados de um tutor. Pouco tempo depois, ela foi transferida para a Conciergerie e posteriormente executada, em 16 de outubro daquele ano. Luís Carlos tinha apenas oito anos e não voltou a ver a mãe. O menino permaneceu então sob a responsabilidade de Antoine Simon, um sapateiro ligado à Comuna de Paris, que recebeu a tarefa de cuidar dele. Existem relatos posteriores de que Simon teria submetido o menino a maus-tratos e tentado fazê-lo repetir acusações contra sua própria mãe.
A situação de Luís Carlos tornou-se ainda mais dramática quando Simon deixou a Torre do Templo em janeiro de 1794. A criança passou a permanecer praticamente isolada em um quarto, sob vigilância permanente dos guardas. As condições de higiene eram extremamente precárias, e seu estado físico deteriorou-se rapidamente. Durante o período do Terror, os revolucionários tinham pouco interesse em preservar adequadamente a saúde de um menino que representava uma ameaça potencial à República. Luís Carlos sofria de uma doença que provocava inchaços e lesões no corpo, provavelmente tuberculose ganglionar, embora o diagnóstico exato continue sendo discutido pelos especialistas. Sua alimentação e higiene eram inadequadas, e ele recebeu pouca atenção médica. Em janeiro de 1795, médicos enviados para examiná-lo constataram que sua saúde estava gravemente comprometida. O menino estava extremamente debilitado, pálido e sofria de dores constantes. Sua condição piorou rapidamente durante os meses seguintes, até que ficou praticamente impossibilitado de deixar a cama.
Luís Carlos morreu na Torre do Templo em 8 de junho de 1795, aos dez anos de idade. A causa oficial da morte foi inicialmente associada a uma forma de tuberculose, embora posteriormente tenham surgido inúmeras teorias de que o menino pudesse ter sido assassinado ou substituído secretamente por outra criança. Essas histórias deram origem ao chamado "mistério de Luís XVII", que permaneceu durante mais de dois séculos. Como seu corpo foi enterrado rapidamente em uma vala comum e não houve uma identificação adequada dos restos mortais, diversos impostores surgiram posteriormente afirmando ser o príncipe sobrevivente. Um dos mais famosos foi Karl Wilhelm Naundorff, que conseguiu convencer algumas pessoas de que era Luís XVII. A questão permaneceu controversa durante muito tempo, até que análises de DNA realizadas no século XX demonstraram que o coração tradicionalmente preservado como pertencente ao menino apresentava compatibilidade genética com a família de Maria Antonieta. A evidência genética ajudou a confirmar que Luís Carlos realmente havia morrido na prisão em 1795, encerrando grande parte das especulações sobre sua sobrevivência.
A morte de Luís XVII representa um dos episódios mais trágicos da Revolução Francesa, pois ele era apenas uma criança que se tornou símbolo de uma disputa política que estava muito além de sua compreensão. Após a execução de Luís XVI e Maria Antonieta, o menino permaneceu como uma espécie de rei simbólico para os monarquistas franceses, embora nunca tivesse exercido qualquer poder. Sua morte encerrou, na prática, a existência do último herdeiro direto de Luís XVI e Maria Antonieta, ainda que sua irmã Maria Teresa tenha sobrevivido à Revolução. Em 1814, após a restauração dos Bourbon, seu tio Luís XVIII assumiu o trono francês e manteve oficialmente a numeração de Luís XVII, reconhecendo-o como rei de direito apesar de nunca ter reinado. O destino de Luís Carlos tornou-se posteriormente uma das histórias mais comoventes associadas à Revolução Francesa. Sua infância interrompida, o encarceramento, a separação da mãe e a morte solitária transformaram-no em um símbolo da brutalidade dos conflitos políticos. Mais de dois séculos depois, Luís XVII continua sendo lembrado como o menino que nasceu para ser rei, mas morreu prisioneiro aos dez anos de idade.
