domingo, 25 de outubro de 2026

Victoria

A TV britânica traz todos os anos novas séries, todas caracterizadas por desfilar uma elegância e sofisticação que não se encontra nas séries americanas. Esse canal ITV é um dos melhores, realçando ainda mais esse tipo de característica. Depois do grande sucesso de "Downton Abbey" temos mais uma série produzida na mesma linha, só que ao invés de mostrar uma família aristocrática aqui o destaque vai para a história de uma das grandes rainhas da Inglaterra, Victoria. Ela deu nome a todo um período da história britânica (que passou a ser conhecida como Era Vitoriana), mas na série o que vemos é uma jovem de 18 anos, muito inexperiente, que se vê de repente na linha de sucessão do trono inglês.

Após a morte de seu tio ("O Rei está morto, viva o Rei!") a jovem Alexandrina assume a coroa. Ela assume o nome dinástico Victoria e começa seu reinado. No começa sua inexperiência e pouca idade começam a atrapalhar, como era previsível. Pequenas intrigas palacianas, principalmente uma fofoca envolvendo seu padrasto, acabam minando de certa maneira a sua popularidade entre os súditos. Os próprios nobres não estão muito convencidos que aquela jovenzinha pode um dia se tornar uma grande rainha. A monarquia entra assim em um momento delicado de sua história.

A rainha é interpretada pela atriz Jenna Coleman, nascida em Blackpool. No começo das filmagens os produtores até mesmo cogitaram escalar uma americana para o papel, mas seria demais para a cabeça dos ingleses ver uma ianque interpretando uma das mais queridas monarcas de sua história. Sabiamente voltaram atrás e escolheram uma atriz carismática, de nacionalidade certa, para dar vida à Victoria. Bonita, até parecida fisicamente com a rainha em seus anos de juventude, gostei muito de seu trabalho de atuação. Quem rouba as atenções porém no quesito atuação é o ator Rufus Sewell. Ele interpreta o primeiro ministro, Lord Melbourne, um político experiente, mais velho, que acaba se tornando o braço direito da jovem rainha (ela inclusive chega a nutrir uma paixão disfarçada por ele!). Enfim, desde o primeiro episódio já percebemos que essa série é realmente acima da média, para acompanhar com a devida atenção.

Victoria (Inglaterra, 2016) Direção: Oliver Blackburn, Sandra Goldbacher, Lisa James Larsson / Roteiro: Daisy Goodwin, A.N. Wilson, Guy Andrews / Elenco: Jenna Coleman, Rufus Sewell, Daniela Holtz, Adrian Schiller / Sinopse: O filme mostra os primeiros anos de reinado da Rainha Victoria (Coleman). Após a morte de seu tio, o Rei, ela se torna a nova Rainha da Inglaterra, com apenas 18 anos de idade. No começo nem seus próprios súditos, nobres em geral, conseguem confiar em seu sucesso como a nova monarca, mas aos poucos Victoria vai demonstrando seu valor no trono do império britânico.

Pablo Aluísio. 

Sua Majestade, Mrs. Brown

Sua Majestade, Mrs. Brown
Assisti pela primeira vez em 1997. Ontem resolvi rever, isso pela simples razão de que ando interessado na história da Rainha Vitória. Acontece que estou acompanhando a série "Victoria" da TV britânica, então sempre surge aquele interesse na figura histórica. Esse filme já mostra a rainha em seus últimos anos, em pleno luto pela morte do marido. A corte toda se veste de preto e há um clima de tristeza no ar. A rainha também havia se retirado de sua vida pública, preferindo viver em um palácio afastado, nos arredores da Escócia. E é justamente nesse clima de pesar que chega um novo criado, um cavalariço chamado Mr. Brown.

Ele meio que desafia a rainha a sair de seu estado melancólico. Todos os dias se coloca em frente ao palácio com a bela montaria da rainha. Isso perturba Vitória em um primeiro momento, mas depois ela cede e começa a fazer passeios a cavalo diariamente. Segundo Mr. Brown apenas o ar livre vai tirar a rainha de seu estado de miserável infelicidade. Aos poucos, como era de se supor, a monarca e seu empregado vão criando uma aproximação, uma amizade sincera entre duas pessoas que se encontram em polos opostos da sociedade inglesa. Claro que isso também começa a despertar suspeitas e ciúmes dentro da nobreza. Não demora muito e as fofocas começam a ficar mais intensas. Estariam tendo um caso amoroso?

Até hoje historiadores não chegaram a uma conclusão sobre isso. O roteiro do filme por sua vez resolveu não tomar certas liberdades com o caso, o que andou bem. Não seria de bom tom mostrar um relacionamento amoroso que nunca foi comprovado, manchando de certa forma a maneira como a rainha Vitória seria retratada no cinema. Entre tantas dúvidas históricas porém emerge um belo filme, com destaque para o elenco. Judi Dench tem o porte certo de uma rainha. Basta sua presença na tela para afastar qualquer dúvida sobre isso. Uma atriz como poucas. Já Billy Connolly também não fica atrás. A suposta rudeza de seu Mr. Brown esconde uma postura de fidelidade e lealdade inquebráveis. Enfim, um belo filme que retratou muito bem a famosa rainha Vitória que deu nome a todo um século na história do império britânico.

Sua Majestade, Mrs. Brown (Mrs Brown, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, 1997) Direção: John Madden / Roteiro: Jeremy Brock / Elenco: Judi Dench, Billy Connolly, Geoffrey Palmer / Sinopse: O filme mostra a amizade que surgiu entre a rainha Vitória e seu criado Mr. Brown. Nele ela encontrou um amigo leal a quem poderia confessar seus mais íntimos pensamentos. Filme vencedor do Globo de Ouro e do BAFTA Awards na categoria de Melhor Atriz (Judi Dench). Também indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Atriz (Judi Dench), e Melhor Maquiagem.

Pablo Aluísio.

Sua Majestade, Mrs. Brown

Sua Majestade, Mrs. Brown
Até hoje os historiadores discutem a natureza do relacionamento da rainha Vitória com um de seus empregados, o Mr. Brown, que cuidava dos cavalos do palácio real. Teria sido um caso amoroso ou apenas uma amizade fraternal envolvendo uma solitária viúva e um homem que tinha a coragem de dizer tudo o que pensava para ela? É justamente a história que esse filme conta. Após a morte de seu marido, a Rainha Vitória (Judi Dench) entra em profunda depressão. Para aliviar sua dor ela acaba sendo amparada por John Brown (Billy Connolly), seu fiel cocheiro, que acaba se tornando seu grande amigo pessoal. Bom filme, muito interessante, explorando a figura de Mr. Brown, um sujeito comum que acabou virando alvo de fofocas durante a era vitoriana por causa de sua aproximação com a Rainha. Alguns historiadores defendem a tese de que havia ali algo muito maior do que a simples amizade, embora não existam provas concretas sobre isso.

Além da curiosidade histórica esse filme se destaca também pela bela atuação da atriz Judi Dench, uma dama do teatro inglês que vale qualquer ingresso. Sua atuação é sofisticada, terna e historicamente muito precisa. Um show de interpretação e bom gosto. Esse filme é um dos melhores já feitos sobre essa monarca inglesa, embora hoje em dia já existam outros filmes mostrando outras fases de sua vida e uma excelente série que inclusive já comentei aqui em nosso blog. Material, como se pode perceber, realmente não falta. O que se destaca nesse roteiro é que ele não se limita a mostrar seus grandes feitos como monarca, mas sim os aspectos mais pessoais, de sua vida privada, que a humanizam de forma maravilhosa.

Sua Majestade, Mrs. Brown (Mrs Brown, Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, 1997) Direção: John Madden / Roteiro: Jeremy Brock / Elenco: Judi Dench, Billy Connolly, Geoffrey Palmer / Sinopse: O filme conta parte da história da Rainha Vitória da Inglaterra. Idosa e solitária, ela acaba criando um relacionamento muito próximo com Mr. Brown, um homem rude, que acaba conquistando sua amizade. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Atriz (Judi Dench) e Melhor Maquiagem.

Pablo Aluísio.

A Jovem Rainha Vitória

A Jovem Rainha Vitória
Vitória foi uma das monarcas mais importantes da história inglesa. Seu reinado foi um dos mais longos que se tem notícia, indo de 1837 a 1901 e marcou o apogeu do império britânico. O século em que reinou ficou conhecido como "A Era Vitoriana". Tanta importância e esplendor já rendeu muitos filmes, livros e documentários mas agora com esse "A Jovem Rainha Vitória" tentou-se fazer algo diferente. Ao invés de retratar a rainha no auge de sua glória os produtores optaram por mostrar seus primeiros anos, ainda jovem e mocinha, envolvida com amores próprios da idade. Tudo embalado em uma produção digna de uma rainha - lindos cenários, muito luxo e figurinos deslumbrantes. O maior problema do filme parece ser justamente o fato de se focar em um dos períodos menos interessantes da nobre pois não há, para falar a verdade, algo realmente marcante na trama do filme. A Vitória que surge em cena está mais preocupada em arranjar um namorado e ir em bailes de gala do que qualquer outra coisa. Nenhuma intriga palaciana surge em cena e o roteiro passa longe de explorar o clima político de sua época. Além disso Vitória é uma garota do século XIX que parece ter idéias avançadas demais para o contexto histórico em que viveu. 

Os roteiristas ignoraram o fato dela ter sido uma das monarcas mais conservadoras da Inglaterra, o que certamente não se ajusta muito bem com a Vitória "moderninha" que surge em cena. O ponto positivo de "A Jovem Rainha Vitória" é certamente o seu elenco. A britânica Emily Blunt se sai bem. Sua interpretação está no tom correto, embora a corte inglesa fosse mais solene e formal da que vemos no filme. Paul Bettany também está bem, inspirado e marcando boa presença. Seu Lord Melbourne é certamente uma das melhores coisas de "The Young Victoria". Curiosamente para um filme tão britânico escalaram um estrangeiro para a direção, o canadense Jean-Marc Vallée. A escolha desagradou alguns jornalistas ingleses e eles tem certa razão em reclamar, uma vez que provavelmente um cineasta do país poderia ter um olhar mais familiar e próximo com a sua realeza britânica. De qualquer forma o produto final não é ruim. Tem sua dose de erros históricos como explicados aqui, mas como entretenimento até pode funcionar. Não é historicamente correto e macula de certa forma a história real dos fatos. Para os que gostam de produções de luxo, com muito romance e cenas de enamorados adolescentes pode até se tornar uma boa opção. Já para os que querem saber mais sobre a Rainha Vitória recomendamos mesmo uma boa visita à biblioteca mais próxima. Será mais instrutivo e esclarecedor certamente. 

A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, Inglaterra, Alemanha, 2009) Direção: Jean-Marc Vallée / Roteiro: Julian Fellowes / Elenco: Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson, Jim Broadbent / Sinopse: O filme narra a adolescência e juventude de Alexandrina Victoria que se tornaria a famosa monarca inglesa Rainha Vitória. Governando durante praticamente todo um século ela reinou em uma época de ouro para o império britânico em seu auge de esplendor e glória.  

Pablo Aluísio.

Os Jovens Anos de uma Rainha

Título no Brasil: Os Jovens Anos de uma Rainha
Título Original: Mädchenjahre einer Königin
Ano de Lançamento: 1954
País: Alemanha Ocidental / Áustria
Estúdio: Carlton-Film
Direção: Ernst Marischka
Roteiro: Ernst Marischka, Georg Hurdalek
Elenco: Romy Schneider, Karlheinz Böhm, Magda Schneider, Michael Cramer, Josef Meinrad, Helmuth Schneider

Sinopse:
O filme retrata a juventude da Rainha Vitória da Inglaterra, desde sua adolescência até o momento em que assume o trono britânico. Criada sob rígido controle político e familiar, a jovem Vitória luta para afirmar sua independência em meio a conspirações da corte, disputas de poder e pressões para manipulá-la. Paralelamente, ela vive seus primeiros sentimentos amorosos, especialmente em relação ao príncipe Albert, enquanto amadurece para assumir o destino que a história lhe reservou.

Comentários: 
É um filme adorável, a tal ponto que a própria Disney comprou seus direitos para lançamento nos Estados Unidos. Nada mais adequado já que as próprias princesas da Disney foram inspiradas em contos e filmes europeus como esse. Historicamente não é nada preciso. E ninguém pediu por algo assim. Esse filme pertence a um estilo cinematográfico que os críticos da época denominaram de drama histórico romântico do pós-guerra. Depois das atrocidades da Segunda Guerra Mundial as pessoas queriam assistir a histórias como essa, romantizadas ao máximo, pura fantasia e luxo! E para Romy Schneider foi a oportunidade de sua vida pois logo após ela foi convidada para interpretar a imperatriz Sissi em uma trilogia de filmes de grande sucesso de bilheteria. Então o que temos aqui é uma película especialmente indicada para o público feminino que deseja assistir a algo leve, romântico, com cenários e figurinos luxuosos, ou seja, literalmente um sonho de princesa. Todas as jovens um dia sonharam com isso e não há nada de errado em pensar assim. Afinal pelo menos os sonhos são lindos. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 11 de outubro de 2026

A Colonização do Império Britânico na Era Vitoriana

A colonização do Império Britânico durante a Era Vitoriana, período correspondente ao reinado da rainha Vitória, entre 1837 e 1901, representou uma das fases mais intensas da expansão imperial europeia. Nesse intervalo, o Reino Unido consolidou sua posição como uma das maiores potências políticas, econômicas, navais e industriais do mundo, ampliando sua influência sobre territórios na Ásia, na África, na Oceania e em outras regiões. A Revolução Industrial havia transformado profundamente a sociedade britânica, aumentando a capacidade de produção de tecidos, máquinas, armamentos e outros bens destinados aos mercados internacionais. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da navegação a vapor, das ferrovias, do telégrafo e das armas modernas facilitou a conquista e o controle de territórios distantes. O Império Britânico não era composto apenas por colônias governadas diretamente por Londres: incluía também protetorados, possessões estratégicas, territórios administrados por companhias comerciais e domínios com ampla autonomia interna. A Índia ocupava uma posição central nesse sistema, tanto por sua população e riqueza quanto por sua importância comercial e militar. Outras regiões, como o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e diversas áreas africanas, desempenhavam funções distintas na estrutura imperial. A expansão britânica era impulsionada por interesses comerciais, pela busca de matérias-primas, pelo acesso a novos consumidores e pelo controle de rotas marítimas fundamentais. Paralelamente, ideias nacionalistas e concepções de superioridade cultural foram utilizadas para justificar a dominação colonial. Assim, a Era Vitoriana tornou-se um período decisivo para a construção de um império mundial cuja influência alcançaria o século XX.

A Índia foi o principal eixo do poder britânico na Ásia e um dos territórios mais importantes para a economia e a estratégia imperial. Antes de assumir o controle direto do subcontinente, os britânicos haviam ampliado sua presença por meio da Companhia Britânica das Índias Orientais, uma organização comercial que acumulou poder econômico, militar e administrativo. A Revolta Indiana de 1857, também conhecida como Revolta dos Sipaios, começou entre soldados indianos a serviço da Companhia e rapidamente se transformou em uma rebelião de maiores proporções contra a autoridade britânica. Embora tenha sido derrotada, a revolta revelou a fragilidade do sistema de governo da Companhia e provocou uma profunda mudança institucional. Em 1858, o governo britânico transferiu formalmente a administração da Índia para a Coroa, iniciando o período conhecido como Raj Britânico. A rainha Vitória foi proclamada imperatriz da Índia em 1876, título que simbolizava a centralidade do território na identidade imperial. A administração colonial desenvolveu ferrovias, linhas telegráficas, portos e estruturas burocráticas, muitas vezes apresentadas como instrumentos de modernização. Entretanto, essas obras também serviam à movimentação de tropas, à exportação de matérias-primas e à integração da economia indiana aos interesses britânicos. A produção de algodão, chá, juta e outros produtos alimentava redes comerciais internacionais, enquanto mercadorias industriais britânicas eram vendidas nos mercados locais. O domínio colonial provocou transformações profundas na agricultura, nas relações de trabalho e nas elites administrativas, beneficiando determinados grupos e prejudicando outros. A cobrança de impostos, as mudanças na propriedade da terra e a vulnerabilidade de muitas comunidades rurais contribuíram para tensões sociais recorrentes. Apesar do controle britânico, a sociedade indiana manteve tradições culturais, religiosas e linguísticas próprias, e novas formas de educação e participação política ajudaram a formar grupos que posteriormente defenderiam reformas e independência.

A partir da segunda metade do século XIX, a África tornou-se um dos principais alvos da expansão colonial britânica. Durante séculos, a presença europeia no continente havia se concentrado sobretudo em áreas costeiras e em redes comerciais, mas, no período vitoriano, as potências europeias intensificaram a ocupação territorial do interior africano. Esse processo ficou conhecido como a Partilha da África e envolveu disputas entre o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Bélgica, Portugal e outras nações. Os britânicos procuravam controlar regiões estratégicas para o comércio, obter matérias-primas e assegurar rotas marítimas fundamentais para suas comunicações imperiais. O Egito ganhou importância especial após a abertura do Canal de Suez, em 1869, que encurtou consideravelmente o trajeto marítimo entre a Europa e a Ásia. Em 1882, tropas britânicas ocuparam o Egito, inicialmente sob a justificativa de restaurar a ordem, mas a presença militar transformou-se em uma prolongada forma de controle político. No sul da África, os interesses britânicos estavam associados às rotas para o interior, às terras agrícolas e, posteriormente, às descobertas de diamantes e ouro. A expansão provocou guerras contra sociedades e Estados africanos que resistiam à dominação, como ocorreu nos conflitos com os zulus e nas guerras contra os bôeres, descendentes de colonos europeus estabelecidos na região. Em outras partes do continente, os britânicos estabeleceram protetorados e administrações coloniais, frequentemente recorrendo a acordos desiguais, intervenções militares e alianças com governantes locais. As fronteiras impostas pelas potências europeias nem sempre respeitaram as divisões políticas, culturais e linguísticas existentes. Por isso, a expansão imperial não deve ser entendida como uma ocupação pacífica ou uniforme: foi um processo marcado por resistência, violência, negociações e profundas transformações nas sociedades africanas.

A expansão britânica também alcançou regiões importantes da Oceania e consolidou posições estratégicas no Mediterrâneo e na Ásia. O Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia desenvolveram instituições de autogoverno ao longo do século XIX, embora a soberania britânica continuasse a fazer parte de sua estrutura política. Em 1867, a Confederação Canadense reuniu várias províncias em um domínio com governo próprio, enquanto as colônias australianas e a Nova Zelândia ampliaram gradualmente sua autonomia. Esses territórios eram diferentes das colônias administradas diretamente, pois suas populações de origem europeia dispunham de crescente participação política. Entretanto, a expansão dos assentamentos coloniais teve consequências devastadoras para muitos povos indígenas, incluindo perda de terras, deslocamentos forçados, epidemias e políticas de assimilação cultural. 

Na Ásia, além da Índia, os britânicos ampliaram sua presença na Birmânia, anexada progressivamente em campanhas realizadas ao longo do século XIX, e fortaleceram posições em áreas como Singapura, Malaca e Hong Kong. A ocupação de Hong Kong começou após a Primeira Guerra do Ópio, encerrada em 1842, quando a China foi obrigada a ceder a ilha à Grã-Bretanha. O comércio com a China, incluindo o controverso comércio de ópio, demonstrava que a expansão imperial também podia ser imposta por meio da força naval e de tratados desiguais. Em 1885, a Birmânia foi incorporada à Índia britânica, ampliando o domínio imperial no Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo, portos, cabos telegráficos, ferrovias e bases navais integravam territórios dispersos em uma extensa rede comercial e militar. Embora os administradores britânicos frequentemente apresentassem sua presença como uma missão civilizadora, os interesses econômicos e estratégicos tinham importância central. A experiência colonial variava de região para região, mas envolvia, em diferentes graus, desigualdade política, exploração econômica e disputas pela terra, ao lado da introdução de novas instituições e infraestruturas.

No final da Era Vitoriana, o Império Britânico havia alcançado uma extensão extraordinária, com territórios e possessões distribuídos por todos os continentes habitados. A expressão “o império onde o sol nunca se põe” tornou-se associada à dimensão mundial de seus domínios, embora a realidade imperial fosse muito mais complexa do que essa imagem sugeria. A Grã-Bretanha obtinha vantagens comerciais e estratégicas, mas também enfrentava elevados custos militares, revoltas coloniais e dificuldades para administrar populações diversas a milhares de quilômetros de Londres. O imperialismo provocou mudanças duradouras nas economias e nas sociedades colonizadas, incluindo a expansão de determinados sistemas educacionais, a construção de ferrovias e portos e a disseminação da língua inglesa. Essas transformações, contudo, foram realizadas principalmente dentro de estruturas destinadas a atender às necessidades do domínio colonial e não significaram igualdade entre britânicos e povos submetidos. 

Ao longo do tempo, a educação moderna, o desenvolvimento de grupos profissionais e o contato com ideias liberais e nacionalistas contribuíram para o surgimento de movimentos políticos anticoloniais. Na Índia, organizações e intelectuais passaram a exigir maior participação no governo, processo que se tornaria fundamental para a luta pela independência no século XX. Na África, a resistência à ocupação assumiu diversas formas, desde guerras e revoltas até a preservação de instituições culturais e práticas comunitárias. A morte da rainha Vitória, em 1901, marcou o encerramento simbólico de uma época, mas não o fim do imperialismo britânico, que continuou durante muitas décadas. O império ainda desempenharia papel central na Primeira Guerra Mundial e na política internacional do século XX, antes de perder grande parte de suas colônias durante o processo de descolonização. Seu legado permanece visível na língua, nas instituições, nas fronteiras e nas relações econômicas de muitos países, mas também nas desigualdades, nos conflitos territoriais e nas memórias de violência associados à dominação colonial. Estudar a colonização britânica na Era Vitoriana significa, portanto, compreender tanto a ascensão de uma potência mundial quanto os custos humanos e políticos de sua expansão.

Victoria & Abdul

Victoria & Abdul 
Poucas vezes no mundo das artes se teve tanto interesse na figura da Rainha Vitória. Além de uma série popular sendo exibida atualmente na Inglaterra, temos aqui um belo filme mostrando uma história pouco conhecida da amizade da Rainha (já octogenária) com um criado indiano chamado Abdul Karim. Eles se conheceram por mero acaso, quando Abdul foi designado para presentear a Rainha, durante um banquete, com uma moeda tradicional da Índia. A monarca não deu muita bola para o presente, mas ficou impressionada e interessada na figura do indiano. A partir daí se aproximaram e uma inusitada amizade se criou entre eles.

Obviamente que a Rainha da Inglaterra ter uma aproximação assim tão de perto com um indiano, ainda mais muçulmano, criou uma série de atritos com os demais membros da família real. Vitória, no fundo uma mulher solitária, sem amigos, já com oitenta anos, sentia-se muito sozinha e amarga, principalmente pelo fato de que todas as pessoas de quem realmente gostava já tinham morrido naquela fase de sua vida. O filho, chamado por ela de Bertie, futuro Rei Eduardo VII, não passava de um homem fútil que só trazia aborrecimentos para ela. As demais filhas também não lhe traziam mais boas notícias, assim acabou sobrando para ele ter pequenos momentos agradáveis com seu servil Abdul, que era um homem inteligente que estava sempre disposto a contar e ensinar coisas para a Rainha. Ela era a Imperatriz da Índia naquele momento, mas nunca havia ido naquele distante e exótico país, tampouco conhecia sua história e riqueza cultural. Abdul acabou abrindo essas portas de conhecimento para ela.

Além de ser historicamente muito interessante, "Victoria & Abdul" ainda passeia pela vida privada e mais íntima da Rainha, a mostrando em momentos bem humanos. Ela foi a monarca que mais tempo ficou no trono na Inglaterra e deu nome a todo um século, chamado de "Era Vitoriana". Foi o auge do império britânico, com possessões e colônias em todos os lugares do mundo conhecido. Claro que em um filme assim haveria a necessidade de ter uma grande atriz interpretando a Rainha Vitória. E ela está lá, Judi Dench. Essa maravilhosa atriz já havia inclusive interpretado Vitória em "Sua Majestade, Mr. Brown" e agora retorna ao mesmo papel. Envelhecida ainda mais por uma bem feita maquiagem (que está concorrendo ao Oscar nessa categoria), ela realmente impressiona pelo talento e pela sensibilidade mostrada em cada momento do filme. Sua atuação é grandiosa. Em suma, um belo filme, um dos melhores de 2017, que inclusive não foi indicado na principal categoria (o de melhor filme do ano). Mais uma injustiça na longa lista da história do Oscar.

Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha (Victoria & Abdul, Inglaterra, Estados Unidos, 2017) Direção: Stephen Frears / Roteiro: Lee Hall / Elenco: Judi Dench, Ali Fazal, Tim Pigott-Smith, Eddie Izzard / Sinopse: Baseado no livro escrito por Shrabani Basu, o filme conta a história real da amizade da Rainha Victoria com um serviçal indiano, que se tornou uma pessoa bem próxima dela em seus últimos anos de vida. Filme indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz (Judi Dench). Também indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Maquiagem e Cabelo (Daniel Phillips e Loulia Sheppard) e Melhor Figurino (Consolata Boyle).

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A Literatura na Era Vitoriana

A Literatura na Era Vitoriana
A literatura na Era Vitoriana corresponde a um dos períodos mais ricos e influentes da história cultural britânica, desenvolvendo-se durante o reinado da rainha Vitória, entre 1837 e 1901. Nesse intervalo, o Reino Unido passou por profundas transformações econômicas, sociais e tecnológicas, impulsionadas pela Revolução Industrial, pela expansão das cidades, pelo crescimento da imprensa e pelo fortalecimento de uma sociedade cada vez mais marcada pelas diferenças entre as classes sociais. Os escritores vitorianos encontraram nesse cenário uma fonte inesgotável de temas, retratando tanto o progresso material quanto as contradições de uma época caracterizada pela prosperidade de determinados setores e pela pobreza enfrentada por grande parte da população trabalhadora. A expansão da alfabetização e a redução dos custos de impressão permitiram que livros, jornais e revistas alcançassem um público cada vez maior. O romance tornou-se o gênero literário dominante, frequentemente publicado em capítulos nos periódicos, o que permitia aos leitores acompanhar as histórias ao longo de semanas ou meses. Essa forma de publicação favoreceu narrativas extensas, com numerosos personagens, conflitos familiares, mistérios e reviravoltas dramáticas. Ao mesmo tempo, a literatura assumiu uma importante função crítica, discutindo questões como a exploração do trabalho infantil, a situação das mulheres, a desigualdade econômica, a hipocrisia social e os efeitos da urbanização. Muitos autores procuraram conciliar o entretenimento com a observação dos problemas contemporâneos, fazendo da ficção um instrumento para compreender a sociedade. Embora a literatura vitoriana seja frequentemente associada aos valores morais da classe média, ela também revelou tensões profundas entre as convenções tradicionais e as mudanças provocadas pela modernização. Por essa razão, o período permanece fundamental para a história do romance moderno e para a formação da literatura em língua inglesa.

Entre os maiores representantes da literatura vitoriana destaca-se Charles Dickens, considerado um dos romancistas mais importantes do século XIX. Nascido em 1812, Dickens conheceu dificuldades financeiras na infância, experiência que influenciou sua sensibilidade diante da pobreza e das injustiças sociais. Em obras como Oliver Twist, David Copperfield, Tempos Difíceis e Grandes Esperanças, retratou a vida das classes populares, as instituições repressivas, os ambientes industriais e as contradições da sociedade britânica. Seus personagens frequentemente combinavam humor, exagero, emoção e crítica social, conquistando leitores de diferentes grupos. Outro nome fundamental foi William Makepeace Thackeray, autor de A Feira das Vaidades, romance que examinou com ironia as ambições, a hipocrisia e a busca por prestígio da sociedade inglesa. As irmãs Brontë também desempenharam papel decisivo na evolução do romance. Charlotte Brontë alcançou reconhecimento com Jane Eyre, obra que acompanha uma mulher em busca de independência emocional e dignidade em uma sociedade dominada por convenções rígidas. Emily Brontë publicou O Morro dos Ventos Uivantes, romance marcado por paixões intensas, ressentimentos e personagens de comportamento complexo, que posteriormente conquistaria enorme prestígio crítico. Anne Brontë, por sua vez, abordou questões relacionadas à posição feminina e às relações matrimoniais em obras como A Inquilina de Wildfell Hall. Já George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, destacou-se por sua profundidade psicológica e sua capacidade de representar dilemas morais e sociais. Em romances como Middlemarch, ela construiu um amplo retrato da vida provincial inglesa, explorando as aspirações individuais, os casamentos, a política local e as limitações impostas pelas convenções sociais.

A poesia também ocupou uma posição de destaque durante a Era Vitoriana, desenvolvendo-se entre a herança romântica e novas preocupações intelectuais e sociais. Alfred, Lord Tennyson, tornou-se um dos poetas mais conhecidos do período e foi nomeado poeta laureado em 1850. Sua produção explorou temas como a perda, a coragem, a passagem do tempo, a fé e as dúvidas provocadas pelas mudanças científicas e culturais. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão In Memoriam A.H.H., escrito após a morte de seu amigo Arthur Hallam, e A Carga da Brigada Ligeira, poema inspirado em um episódio da Guerra da Crimeia. Robert Browning destacou-se pelo desenvolvimento do monólogo dramático, recurso que permitia apresentar personagens revelando involuntariamente suas próprias contradições e fraquezas. Sua esposa, Elizabeth Barrett Browning, também foi uma poetisa de grande importância, reconhecida por obras que abordavam o amor, a liberdade, a escravidão e a condição feminina. Matthew Arnold, além de poeta, foi um importante crítico cultural, refletindo sobre a educação, a religião e as transformações da sociedade moderna. A poesia vitoriana também encontrou espaço para a experimentação estética e para o questionamento dos valores dominantes. Na segunda metade do século, o movimento esteticista passou a defender a autonomia da arte e a valorização da beleza, em contraste com a expectativa de que toda obra literária devesse transmitir uma lição moral explícita. Dante Gabriel Rossetti, associado à Irmandade Pré-Rafaelita, aproximou poesia e pintura por meio de imagens simbólicas, referências medievais e representações idealizadas da beleza. Christina Rossetti, sua irmã, produziu poemas de grande intensidade emocional e espiritual, incluindo textos que exploravam o desejo, a renúncia e a mortalidade. Assim, a poesia vitoriana refletiu tanto a continuidade das tradições anteriores quanto o surgimento de novas sensibilidades artísticas.

O teatro, a literatura de mistério e as histórias de aventura também contribuíram para a diversidade cultural do período. Durante grande parte do século XIX, o teatro britânico apresentou melodramas, comédias, adaptações literárias e espetáculos populares destinados a públicos cada vez mais numerosos. Na parte final da Era Vitoriana, Oscar Wilde tornou-se um dos dramaturgos mais conhecidos, utilizando diálogos espirituosos e situações cômicas para satirizar a hipocrisia e as convenções da alta sociedade. Peças como O Leque de Lady Windermere e A Importância de Ser Prudente permanecem entre os exemplos mais célebres da comédia teatral britânica. Na prosa, o desenvolvimento da literatura policial ganhou impulso com as histórias de Sherlock Holmes, personagem criado por Arthur Conan Doyle e apresentado ao público em 1887, no romance Um Estudo em Vermelho. Holmes e seu companheiro, o doutor Watson, tornaram-se figuras centrais de uma tradição narrativa baseada na observação, na dedução lógica e na resolução de crimes. O gênero de aventura também prosperou, em parte graças ao interesse público por viagens, exploração geográfica e expansão imperial. Robert Louis Stevenson alcançou grande sucesso com A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro, obras que combinaram suspense, aventura e reflexão sobre a natureza humana. H. Rider Haggard destacou-se com romances de exploração ambientados em territórios distantes, enquanto Rudyard Kipling, nascido na Índia britânica, tornou-se conhecido por narrativas que refletiam a experiência colonial, entre elas O Livro da Selva, publicado em 1894. Essas obras, entretanto, precisam ser compreendidas dentro das perspectivas imperiais e culturais de seu tempo, algumas das quais reproduziam estereótipos sobre povos não europeus. Ao mesmo tempo, o período assistiu ao desenvolvimento de uma literatura fantástica que explorava mundos imaginários, transformações extraordinárias e os limites da ciência. A diversidade de gêneros demonstra que a literatura vitoriana não se restringiu aos romances realistas, abrangendo também o humor, o terror, o mistério, a fantasia e a aventura.

A importância da literatura vitoriana ultrapassou as fronteiras do Reino Unido e influenciou profundamente a cultura de outros países, inclusive por meio das traduções, das adaptações teatrais e, posteriormente, do cinema e da televisão. Os romances de Dickens, as histórias de Sherlock Holmes, os conflitos de Jane Eyre e as atmosferas sombrias de O Médico e o Monstro continuam sendo reinterpretados por novas gerações de leitores e artistas. O período também deixou uma contribuição duradoura para a construção de personagens psicologicamente complexos, para a representação das cidades modernas e para a análise das relações entre indivíduos e estruturas sociais. A expansão do mercado editorial estabeleceu formas de circulação literária que ajudaram a transformar escritores em figuras públicas e os leitores em parte de uma comunidade cultural mais ampla. Entretanto, a literatura da época não foi homogênea: diferentes autores criticaram as convenções vitorianas, questionaram a moralidade dominante ou procuraram ampliar o espaço concedido às experiências femininas e às classes desfavorecidas. No final do século XIX, as transformações intelectuais associadas às novas teorias científicas, à secularização e ao crescimento das grandes cidades começaram a desafiar algumas das certezas que haviam sustentado a cultura do período. Escritores como Thomas Hardy exploraram o conflito entre o indivíduo e as forças sociais, além das limitações impostas pelo destino, pela tradição e pelas convenções morais. Seu romance Judas, o Obscuro, publicado em 1895, provocou controvérsia por questionar instituições e normas sociais estabelecidas. A passagem para o século XX traria novas formas de experimentação literária, mas muitos dos temas desenvolvidos pelos vitorianos continuariam presentes no modernismo e na literatura contemporânea. A Era Vitoriana permanece, portanto, um dos grandes momentos da história literária ocidental, não apenas pela quantidade de autores e obras importantes que produziu, mas também por sua capacidade de registrar as contradições de uma sociedade em rápida transformação e de criar personagens, narrativas e ideias que continuam relevantes mais de um século depois.

A Morte da Rainha Vitoria da Inglaterra

A Morte da Rainha Vitoria da Inglaterra
A rainha Vitória do Reino Unido, uma das soberanas mais importantes da história britânica, morreu em 22 de janeiro de 1901, aos 81 anos, encerrando um reinado extraordinariamente longo, que havia começado em 1837. Nascida Alexandrina Vitória em 24 de maio de 1819, no Palácio de Kensington, em Londres, ela subiu ao trono aos 18 anos, após a morte de seu tio, o rei Guilherme IV. Durante seus 63 anos e sete meses de governo, o Reino Unido passou por transformações profundas, impulsionadas pela Revolução Industrial, pela expansão ferroviária, pelo desenvolvimento científico e pelo crescimento do comércio internacional. O Império Britânico ampliou sua presença em diversas regiões do mundo, tornando-se uma das maiores estruturas imperiais da história moderna. O período ficou conhecido como Era Vitoriana e foi marcado tanto pelo progresso econômico e tecnológico quanto por profundas desigualdades sociais, conflitos coloniais e mudanças na vida cotidiana. A rainha tornou-se um símbolo da continuidade da monarquia britânica em meio a essas transformações. Em 1840, casou-se com o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, com quem teve nove filhos. O casal desempenhou um papel importante na vida pública e familiar da corte, promovendo uma imagem de estabilidade doméstica que influenciou os costumes da sociedade britânica. A morte de Alberto, em dezembro de 1861, abalou profundamente Vitória e modificou sua relação com a vida pública. Durante muitos anos, a soberana permaneceu de luto e reduziu consideravelmente suas aparições oficiais. Mesmo assim, continuou reinando e, nas décadas seguintes, recuperou gradualmente sua popularidade, especialmente quando o jubileu de diamante, em 1897, celebrou sessenta anos de sua ascensão ao trono.

Nos últimos anos do século XIX, Vitória já era uma figura idosa, mas continuava ocupando uma posição central na identidade nacional britânica. Seu reinado havia atravessado governos de diferentes orientações políticas, incluindo os de Benjamin Disraeli e William Gladstone, além de guerras, reformas parlamentares e grandes mudanças na relação entre a Coroa e o Parlamento. Embora o poder político efetivo da monarquia tivesse diminuído em comparação com séculos anteriores, Vitória exercia influência por meio de suas conversas com os primeiros-ministros, de suas correspondências e de sua participação em questões diplomáticas. A soberana também se tornara uma figura familiar para milhões de britânicos, que haviam vivido toda a vida sob seu reinado. Em 1897, as comemorações do jubileu de diamante reuniram representantes de diferentes partes do Império e foram acompanhadas por grandes manifestações públicas. Entretanto, a velhice começou a limitar cada vez mais suas atividades. Durante 1900, Vitória enfrentou períodos de fragilidade física, enquanto continuava acompanhando assuntos de Estado e mantendo contato com membros da família real. O início da Segunda Guerra dos Bôeres, na África Austral, em 1899, também marcou os últimos anos de seu governo e revelou as dificuldades enfrentadas pelo Império Britânico em seus conflitos coloniais. A rainha acompanhou os acontecimentos com interesse e apoiou publicamente as tropas britânicas. No começo de janeiro de 1901, sua condição física piorou significativamente. Ela estava na Osborne House, sua residência na Ilha de Wight, onde costumava passar parte do inverno. Ali, cercada por familiares, médicos e funcionários da corte, viveu seus últimos dias. Sua morte representaria não apenas a perda de uma soberana idosa, mas o encerramento de uma época que havia moldado profundamente a sociedade britânica.

A saúde de Vitória deteriorou-se durante as semanas finais de janeiro de 1901. A rainha encontrava-se debilitada, e os membros da família real foram informados de que seu estado era grave. Entre os parentes que acompanharam seus últimos momentos estavam seu filho e herdeiro, o príncipe de Gales, futuro Eduardo VII, e seu neto, o imperador alemão Guilherme II, que mantinha com ela uma relação familiar próxima, embora o cenário político europeu fosse cada vez mais marcado por rivalidades entre as grandes potências. A presença de Guilherme II, que viajou para estar ao lado da avó, demonstrava a importância das relações dinásticas que ligavam as casas reais europeias. Vitória havia sido frequentemente chamada de "avó da Europa" porque seus filhos e netos se casaram com membros de várias famílias reinantes do continente. Essa rede familiar não impediu, entretanto, o crescimento das tensões internacionais que caracterizariam as décadas seguintes. Em 22 de janeiro de 1901, na Osborne House, a rainha morreu após uma deterioração de sua saúde, acompanhada por familiares e pessoas próximas. Tinha 81 anos e havia permanecido no trono por quase 64 anos. Sua morte foi comunicada oficialmente, provocando manifestações de pesar em Londres, nas cidades britânicas e em diferentes partes do Império. Para muitos súditos, Vitória era a única monarca que haviam conhecido durante toda a vida. Sua longevidade havia associado sua imagem à estabilidade institucional, mesmo em meio às transformações econômicas, políticas e sociais do século XIX. O falecimento foi acompanhado por uma intensa cobertura da imprensa, que tratou o acontecimento como um marco histórico. A morte da soberana também provocou uma mudança imediata na chefia do Estado: seu filho mais velho, Eduardo, tornou-se rei Eduardo VII, iniciando uma nova fase da monarquia britânica.

O funeral de Vitória foi organizado segundo um cerimonial que refletia tanto sua posição de soberana quanto suas preferências pessoais. Ao longo da vida, a rainha manifestara o desejo de que seu funeral não fosse excessivamente sombrio, embora a cerimônia precisasse respeitar a tradição monárquica. Como era viúva havia quase quarenta anos, a memória do príncipe Alberto ocupava um lugar especial em sua vida. Vitória foi sepultada em 4 de fevereiro de 1901, no Mausoléu Real de Frogmore, em Windsor, ao lado do marido, em um túmulo preparado para o casal. O mausoléu havia sido construído por determinação da própria rainha após a morte de Alberto, em 1861, e simbolizava a importância que atribuía à união matrimonial e à memória familiar. Antes do sepultamento, seu corpo foi transportado em uma cerimônia que contou com a participação de representantes da família real, das forças armadas e de autoridades britânicas. O funeral teve características militares e dinásticas, refletindo a posição do Reino Unido como uma das principais potências mundiais. Em Londres e em outras cidades, multidões acompanharam as cerimônias e prestaram homenagens à soberana. Governantes estrangeiros também expressaram condolências, pois Vitória mantinha vínculos familiares com diversas casas reais europeias. A passagem do trono para Eduardo VII ocorreu sem uma crise sucessória, demonstrando a consolidação das regras constitucionais da monarquia britânica. O novo rei, então com 59 anos, assumiu o governo em uma sociedade que já era bastante diferente daquela que sua mãe encontrara em 1837. O país possuía uma economia industrial avançada, uma rede ferroviária extensa, uma imprensa de grande circulação e um sistema político mais representativo do que no início do reinado vitoriano. Apesar disso, continuavam presentes graves problemas sociais, incluindo a pobreza urbana, as condições difíceis de trabalho e as tensões relacionadas ao domínio colonial. A morte de Vitória marcou, assim, uma transição entre duas épocas da história britânica.

O legado da rainha Vitória permanece associado à transformação do Reino Unido em uma potência industrial e imperial de alcance mundial, embora seja necessário reconhecer que essas mudanças decorreram de processos históricos amplos, envolvendo governos, empresários, trabalhadores, cientistas e populações de diferentes continentes. Durante seu reinado, a monarquia britânica adaptou-se gradualmente a um sistema parlamentar no qual o soberano conservava funções constitucionais, diplomáticas e simbólicas, mas não governava sozinho. A imagem pública de Vitória ajudou a consolidar uma concepção da família real ligada à disciplina, ao dever e à estabilidade, valores frequentemente associados à sociedade vitoriana. Ao mesmo tempo, a expansão imperial que ocorreu durante seu governo envolveu guerras, ocupações, exploração econômica e imposição de autoridade britânica sobre povos que resistiram ao domínio estrangeiro. Por isso, a avaliação histórica de seu reinado exige considerar tanto as realizações econômicas e institucionais do período quanto suas desigualdades e consequências coloniais. Sua morte, em janeiro de 1901, foi recebida por muitos contemporâneos como o fim de um mundo conhecido. O século XIX havia sido profundamente marcado por sua presença, e a passagem para o século XX trouxe novas disputas internacionais, transformações culturais e desafios políticos. Eduardo VII inaugurou o período eduardiano, durante o qual a sociedade britânica continuou mudando e as rivalidades entre as potências europeias se intensificaram. Menos de duas décadas depois, a Primeira Guerra Mundial provocaria o colapso de vários impérios e alteraria profundamente a ordem internacional. Vitória não viveu para testemunhar essa transformação, mas sua longa vida e seu reinado permaneceram como referências fundamentais para compreender a história moderna do Reino Unido. Quando morreu na Osborne House, aos 81 anos, deixou um trono estável, uma família real espalhada por diversas cortes europeias e um legado histórico complexo, inseparável da industrialização, da expansão imperial e da evolução constitucional britânica.

domingo, 4 de outubro de 2026

A Era Vitoriana

A Era Vitoriana
A Era Vitoriana foi um dos períodos mais marcantes da história britânica, estendendo-se de 1837 a 1901, durante o longo reinado da rainha Vitória. Ao longo dessas décadas, o Reino Unido passou por profundas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais, tornando-se uma das maiores potências do mundo. A época foi marcada pelo fortalecimento do Império Britânico, pela expansão industrial e pelo crescimento extraordinário das cidades. Londres transformou-se em uma das maiores metrópoles do planeta, recebendo milhões de habitantes e concentrando atividades comerciais, financeiras e políticas. As ferrovias, os navios a vapor e as novas formas de comunicação aproximaram regiões distantes e aceleraram o ritmo da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, a sociedade vitoriana desenvolveu uma forte valorização da disciplina, da respeitabilidade, da família e das convenções sociais. Entretanto, por trás da imagem de prosperidade e elegância existiam profundas desigualdades entre ricos e pobres, além de condições extremamente difíceis para grande parte da classe trabalhadora. A Era Vitoriana, portanto, foi um período de contrastes, no qual riqueza, progresso e inovação conviviam diariamente com pobreza, exploração e problemas sociais.

A Revolução Industrial atingiu durante o período vitoriano uma dimensão sem precedentes, transformando definitivamente a economia e a estrutura da sociedade britânica. Fábricas cresceram rapidamente e atraíram milhares de trabalhadores para centros urbanos, criando novas oportunidades, mas também condições de trabalho muitas vezes perigosas e exaustivas. Homens, mulheres e até crianças trabalhavam durante longas jornadas em fábricas, minas e oficinas, recebendo salários baixos e vivendo frequentemente em bairros superlotados. Com o passar das décadas, movimentos sociais e reformas políticas começaram a pressionar o governo por melhores condições de trabalho e maior proteção aos trabalhadores. Foram aprovadas leis que limitaram gradualmente o trabalho infantil e estabeleceram novas regras para fábricas, minas e outros setores. Paralelamente, o crescimento da classe média criou novos padrões de consumo, educação e comportamento social. A expansão da imprensa e o aumento da alfabetização fizeram com que jornais, revistas e livros alcançassem um público cada vez maior. A literatura viveu uma época extraordinária, com autores como Charles Dickens, George Eliot, Thomas Hardy, Robert Louis Stevenson, Lewis Carroll e Oscar Wilde produzindo obras que retratavam tanto os sonhos quanto as contradições da sociedade de seu tempo. Assim, a cultura vitoriana tornou-se uma das mais influentes e reconhecíveis de toda a história moderna.

A sociedade vitoriana também ficou conhecida por suas rígidas convenções morais e por uma preocupação constante com aparência, comportamento e posição social. A família ocupava um lugar central na vida cotidiana, enquanto as diferenças entre homens e mulheres eram claramente definidas pelas normas da época. Mulheres das classes mais privilegiadas deveriam manter uma postura discreta e dedicar-se principalmente à família e à administração doméstica, embora algumas começassem a questionar essas limitações e a reivindicar maior participação na vida pública. O período também testemunhou o surgimento de importantes movimentos pelos direitos das mulheres, pela educação feminina e pela reforma social. Na ciência, o século XIX foi igualmente revolucionário, com descobertas que modificaram profundamente a compreensão do mundo e da própria humanidade. Charles Darwin publicou suas teorias sobre evolução e seleção natural, provocando intenso debate científico, religioso e social. A medicina avançou com novos conhecimentos sobre higiene, infecções e procedimentos cirúrgicos, enquanto invenções como a fotografia, o telefone, a iluminação elétrica e novos meios de transporte transformaram a vida cotidiana. A arquitetura também deixou uma marca extraordinária, especialmente através do estilo neogótico, dos grandes edifícios públicos, das estações ferroviárias e das residências ornamentadas. O resultado foi uma sociedade fascinada pelo progresso, mas ainda profundamente ligada às tradições e às hierarquias do passado.

No cenário internacional, a Era Vitoriana correspondeu ao auge do poder imperial britânico, quando o Reino Unido possuía territórios e interesses espalhados por diferentes continentes. A expansão imperial levou a influência britânica para regiões da Ásia, África, Oceania e outras partes do mundo, embora esse processo também tenha sido marcado por guerras, exploração econômica, dominação política e graves consequências para os povos colonizados. O período terminou com a morte da rainha Vitória, em janeiro de 1901, encerrando um reinado de mais de seis décadas. Mesmo depois de seu fim, entretanto, a Era Vitoriana continuou exercendo enorme influência sobre a cultura ocidental. Sua arquitetura, sua literatura, suas roupas, seus costumes e até sua imagem de uma sociedade dominada por carruagens, cavalheiros, damas, ruas iluminadas por lampiões e grandes edifícios continuam presentes no imaginário popular. Ao mesmo tempo, os problemas sociais daquele período ajudaram a moldar debates modernos sobre direitos trabalhistas, educação, pobreza e desigualdade. A Era Vitoriana permanece, portanto, como um dos períodos mais fascinantes e complexos da história britânica. Foi uma época de extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico, de grande produção cultural e de expansão imperial, mas também de profundas contradições sociais. Seu legado permanece visível até hoje, tanto na história do Reino Unido quanto na maneira como imaginamos o mundo do século XIX.