domingo, 20 de setembro de 2026

A Profanação dos Reis da França

A Profanação dos Reis da França
Uma das histórias mais terríveis da Revolução Francesa se deu na chamada profanação dos Reis da França. Em um momento em que o radicalismo e o fanatismo tomavam conta dos revolucionários franceses, decidiu-se que não deveria se deixar pedra sobre pedra em relação à monarquia francesa, ao antigo regime. Era necessário não apenas matar o rei Luís XVI e a Rainha Maria Antonieta, mas também apagar para sempre da história os nomes dos reis e rainhas do passado. Nem a memória e nem o respeito aos mortos, aos corpos do reis dos séculos anteriores, deveriam ser mantidos. A ordem era acabar com tudo, de forma violenta e definitiva! Assim uma turba ensandecida marchou em direção à milenar Basílica de Saint-Denis. Ali aconteceria atos de vandalismo e desrespeito ímpares na história da Europa. 

Durante séculos os reis e suas rainhas tinham sido sepultados naquela grandiosa catedral cristã. Só que os revolucionários, tomados por ódio e ressentimento, decidiram que os reis e as rainhas tinham que ser tirados violentamente de suas tumbas para um ato final de vandalismo sem precedentes. Eles começaram a destruir os seus túmulos, puxando os corpos de reis e rainhas para destrui-los sem dó e nem piedade. Um momento de barbarismo sem limites. Além disso não podemos ignorar que muitos daqueles revolucionários queriam mesmo era roubar as jóias e objetos valiosos com que esses monarcas tinham sido enterrados. Em última análise eram todos ladrões e saqueadores de tumbas reais. 

Eles violaram túmulos de grandes nomes da história como o do primeiro rei da França, Clovis I, o homem que havia expulsado os invasores romanos do solo francês. Roubaram sua valiosa coroa que havia sido enterrada com ele, roubaram seus anéis e até mesmo o cetro real dourado, uma peça histórica extremamente importante, de um valor histórico imensurável, feita de puro ouro. E quando esses objetos foram roubados houve também brigas para saber quem iria ficar de posse dessas valiosas peças. Agindo como abutres, os revolucionários transforam o ambiente da catedral em puro caos de violência e crime. Não havia maior prova de sua sordidez do que brigar por itens roubados que não lhes pertenciam.

Todos os túmulos reais foram profanados em apenas uma tarde. Quando abriram o caixão do rei sol, Luís XIV, tiveram uma grande surpresa. O famoso monarca tinha o corpo perfeitamente preservado. Um homem alto em vida, sua postura no túmulo era tão nobre que os revolucionários ficaram alguns minutos apenas olhando para aquele lendário rei da França, em um silêncio até mesmo respeitoso. Mesmo morto, Luís XIV mantinha seu porte e pose reais de nobreza. Só depois de um tempo é que um dos ladrões da multidão decidiu profanar o corpo do rei, abrindo sua barriga com uma espada, tirando de lá seus restos mortais para depois colocá-los em sua boca. Depois cortaram a cabeça de Luís, o Rei Sol, sob aplausos e gritos de todos os presentes. E também roubaram tudo o que havia de valor dentro de seu caixão! Era atroz a situação!

Reis medievais tiveram suas espadas e armaduras roubadas após destroçarem seus corpos. Rainhas sofreram atos de desrespeito de natureza sexual. A barbaridade não tinha limites. A farra insana porém acabou quando abriram o caixão do Rei Luís XV. Seu corpo entrou em putrefação líquida imediatamente após entrar em contato de novo com o oxigênio do ar. O corpo real se desmanchou em um chorume cadavérico de cor esverdeada! O cheiro fétido foi tão forte que os revolucionários tiveram que sair por alguns minutos de dentro da catedral. Até parecia que o penúltimo rei francês tentava, mesmo após sua morte, expulsar todos aqueles profanadores das tumbas reais. Infelizmente não havia como parar aquelas pessoas. Todos os túmulos foram violados e todos os bens foram roubados, até mesmo as roupas e mortalhas com tecidos finos que alguns reis tinham sido enterrados. Nada sobreviveu ao assalto daquela multidão enlouquecida de ódio. 

Depois os restos mortais dos reis e rainhas, agora completamente destroçados, foram jogados em um terreno baldio pantanoso perto da catedral. Alia jazia no meio da água podre os restos de algumas das figuras históricas mais importantes da história da França e da Europa. Tudo foi jogado no lixo, literalmente. Anos depois a monarquia francesa seria restaurada por um breve período. Os restos mortais que conseguiram resgatar foram retirados do pântano e colocados em dois grandes baús que foram levados de volta para a Basílica de Saint-Denis. Atualmente há um projeto de se catalogar através de exames de DNA os reis e rainhas francesas, para colocá-los de volta em suas tumbas originais, mas até hoje isso nunca foi feito. Seria um resgate histórico de respeito a todos esses monarcas. De qualquer forma fica o mal exemplo da brutalidade e insanidade que pode tomar conta de pessoas simplesmente alucinadas por ideologias políticas. O respeito pela passado histórico precisa ficar acima desse tipo de fanatismo ensandecido.

Pablo Aluísio. 

O Lado Negro da Revolução Francesa

O Lado Negro da Revolução Francesa
Embora a Revolução Francesa tenha deixado um legado histórico importante para a humanidade, com todos os seus princípios e valores jurídicos e humanistas, o fato é que houve sim um lado sombrio naqueles acontecimentos. A brutalidade, a barbárie e a violência imperaram de uma forma injustificável. A revolução francesa provou, entre outras coisas, que as massas sem controle se comportam como assassinas e cruéis.

A crueldade estava em todos os lugares, em todas as partes mais remotas do país. Pessoas eram sumariamente mortas apenas por terem alguma ligação com a nobreza. Mesmo se tivessem isso jamais justificaria a matança de pessoas inocentes. A revolução não distinguia entre crianças, mulheres e idosos. Todos eram assassinados. Isso pode ser constatado pela própria família real. Não apenas o rei Luís XVI foi guilhotinado, mas também a rainha Maria Antonieta. O pequeno herdeiro, o Delfim, teve destino desconhecido, mas historiadores concordam que ele foi deixado numa cena imunda para morrer de frio, fome e doenças. Era um garotinho. Matar uma criança como ele foi um ato ignóbil.

Pessoas idosas também não escaparam da guilhotina. A cabeça dos nobres, de padres e de qualquer um que fosse considerado contra a revolução eram penduradas em lanças ou expostas pela ruas de Paris. Muitas cabeças ficavam nos postes apodrecendo enquanto abutres se alimentavam delas. Houve também saques a túmulos. Os reis franceses que foram enterrados na capela de St. Denis ao longo de séculos tiveram seus túmulos profanados. Seus restos mortais, depois da pilhagem, foram jogados em um pântano próximo. Roubaram os artefatos que estavam nos caixões como anéis, medalhas, etc. Uma coisa horrorosa. O aspecto histórico foi completamente ignorado por uma massa de pessoas sem qualquer cultura ou formação educacional.

O mais temível nisso tudo é que depois de um tempo a revolução começou a se auto destruir. Os próprios revolucionários passaram a se acusar, tais como fanáticos sem freios. Danton e Roberspierre foram para a guilhotina, acusados de traidores e infames, mesmo que as provas fossem precárias. O período do terror demonstrou sem meias verdades a insanidade da revolução francesa. Um período violento e estúpido na história da França.

A Revolução Francesa foi especialmente cruel com a rainha Maria Antonieta. Como ela era austríaca de nascimento criou-se toda uma onda de xenofobia em torno dela, algo que foi aumentando e aumentando, muito por causa do ressentimento das roupas caras e finas que a rainha usava em seu auge na corte. Quando a revolução explodiu o ódio também saiu do controle. A própria rainha se viu cercada por mulheres em seu palácio. Elas com facões ameaçavam a vida da rainha e de seu filho. Todos os tipos de rancores movidas por classes sociais explodiram ali.

Quando a rainha foi presa seus direitos humanos foram flagrantemente violados - os mesmos direitos humanos que os revolucionários diziam defender. A rainha foi jogada em uma masmorra medieval úmida, sem as mínimas condições de higiene. Banhos e roupas limpas lhes foram negados. A comida era pouca para a própria sobrevivência.

Depois da morte do marido, o rei Luís XVI, os revolucionários franceses continuaram com seus atos de pura violência física e mental contra a rainha. Seu filho lhe foi retirado da cela, para morrer em outra cela de causas até hoje mal explicadas. Muitos historiadores afirmam que os revolucionários deixaram que ele morresse de fome, frio e doenças por causa da cela insalubre onde foi jogado. Os poucos pertences que ainda continuavam com a rainha foram roubados pelos carcereiros, entre eles um pequeno relógio que havia sido dado a ela por sua mãe, a imperatriz Maria Theresa. Maria Antonieta começou a apresentar sinais de uma grave enfermidade, onde hemorragias constantes aumentavam a cada dia. Os revolucionários negaram a ela atendimento médico e até o uso de panos para conter e limpar o sangue. Direitos humanos respeitados? Não pelos revolucionários que diziam defender essa bandeira.

Assim cai por terra muitas das falácias de que os revolucionários franceses eram pessoas ilustradas que defendiam a liberdade e os direitos humanos. Eles foram muito mais movidos pelo ódio contra a monarquia e o clero do que qualquer outra coisa. Não conseguiam respeitar nem Maria Antonieta, a rainha, em sua condição de mulher, esposa e mãe. Mataram milhares de pessoas sem julgamento justo, em praça pública, movidos apenas por ódio, histeria e gritaria. Os revolucionários assim agiam como verdades bárbaros e inescrupulosos. Coisas que eles realmente eram.

Pablo Aluísio.

Revolução Francesa: Do iluminismo ao Terror

Revolução Francesa: Do iluminismo ao Terror
A revolução francesa foi bastante importante no aspecto político e jurídico. Sim os ideais de igualdade, fraternidade e solidariedade sempre serão a base de todas as repúblicas que nasceram após a revolução. A monarquia tinha uma forte pirâmide social, com quase ou nenhuma mobilidade. Caso você nascesse dentro da nobreza iria ser nobre até o fim de seus dias. Não seria necessário ganhar o pão de cada dia com o suor de seu rosto. O seu sangue inclusive não seria vermelho, mas azul. As castas envoltas nos sistemas monárquicos são naturalmente desiguais. O Rei era o monarca não por vontade dos homens, mas por vontade de Deus. Era o direito divino dos Reis e soberanos, algo que vinha desde a idade média.

Então surgiu um grupo de escritores, filósofos e sociólogos que ousaram fazer a pergunta óbvia: Por que um nobre teria mais direitos do que um homem comum do povo? A linhagem familiar o colocava em um patamar mais superior aos demais. Sangue azul? Balela, o sangue dos príncipes era tão vermelho como o de que qualquer outro plebeu do povo. Não havia razões racionais para essa desigualdade toda. E assim homens como Jean-Jacques Rousseau, Charles-Louis de Seconda (Montesquieu), John Locke, Voltaire, Denis Diderot e outros pensaram em um mundo diferente, onde não haveria tanta desigualdade social.

E assim temos os dois lados da revolução francesa. Um teórico, iluminado, muito inteligente e espirituoso. Uma nova forma de pensar nosso mundo. Do outro lado porém surgiu o lado prático, violento, fincado no ódio puro, no gosto de sangue. Sim, porque nenhum pensador iluminista pensou que membros do povo com grandes facas de cortar peixe invadiriam palácios, fazendo justiça pelas próprias mãos. Eles não pregaram que as cabeças dos nobres deveriam ser expostas em estacas. Nem que fossem mortos na guilhotina. O fato é que a revolução francesa, que havia sido inspirada pelos mais nobres valores, acabou em um banho de sangue, impulsionado pelos mais sórdidos instintos humanos. Literalmente cabeças rolaram nas escadarias palacianas onde vivia a velha nobreza europeia. 

Em minha opinião a revolução francesa se tingiu com o vermelho sangue que corria do reino das trevas de ódio. Quando leio sobre as desgraças que se abateram sobre a família real francesa, com as decapitações de Luís XVI e Maria Antonieta, além da morte indigna do jovem filho deles, abandonado à própria sorte em uma cela imunda que o matou, não posso deixar de pensar que tudo foi uma grande barbárie. O pensamento iluminista que deu origem a tudo estava correto. A forma como foi colocado em prática revela o modo bárbaro como tudo foi feito. Por isso as cores da bandeira da França até hoje me lembram do vermelho do sangue derramado, do azui dos nobres assassinados e do branco da paz que nunca valeu naqueles dias terríveis.

Pablo Aluísio.

domingo, 13 de setembro de 2026

Revolução Francesa: A Morte de Luís XVI

Revolução Francesa: A Morte de Luís XVI
A morte de Luís XVI, ocorrida em 21 de janeiro de 1793, foi um dos acontecimentos mais dramáticos e decisivos da Revolução Francesa. Nascido em 23 de agosto de 1754, Luís Augusto de Bourbon tornou-se rei da França em 1774, sucedendo seu avô, Luís XV. Quando assumiu o trono, encontrou um reino poderoso e culturalmente influente, mas profundamente endividado e marcado por enormes desigualdades sociais. O monarca não era, inicialmente, visto como um governante particularmente cruel ou despótico; ao contrário, muitos de seus contemporâneos o consideravam pessoalmente bem-intencionado, porém indeciso e incapaz de enfrentar com firmeza os problemas estruturais do país. A participação francesa na Guerra de Independência dos Estados Unidos agravou ainda mais as finanças da monarquia, enquanto o sistema tributário permanecia extremamente desigual. A partir de 1789, a crise econômica transformou-se em crise política. A convocação dos Estados Gerais, a formação da Assembleia Nacional e a Queda da Bastilha deram início a uma revolução que rapidamente ultrapassaria as intenções originais de reformas administrativas. Luís XVI passou de soberano absoluto a monarca constitucional e, depois, a prisioneiro da própria revolução que pretendia inicialmente controlar. Sua relação com a Revolução foi marcada por hesitações, tentativas de conciliação e também por esforços secretos para recuperar sua autoridade. O episódio da fuga para Varennes, em junho de 1791, foi particularmente importante, pois destruiu grande parte da confiança que ainda existia entre o rei e setores revolucionários moderados.

A tentativa de fuga para Varennes tornou-se um divisor de águas na trajetória de Luís XVI. O rei, sua esposa Maria Antonieta e seus filhos pretendiam alcançar uma região próxima à fronteira oriental, onde poderiam contar com forças militares leais e tentar reorganizar a situação política. A família real foi reconhecida durante a viagem e detida em Varennes, sendo posteriormente conduzida de volta a Paris sob forte escolta. Embora a Constituição de 1791 ainda mantivesse a monarquia, a imagem de Luís XVI como soberano comprometido com o novo regime constitucional ficou profundamente abalada. A situação piorou no ano seguinte, quando a França entrou em guerra contra a Áustria e outras potências europeias. Muitos revolucionários acreditavam que o rei poderia estar conspirando com as monarquias estrangeiras para destruir a Revolução. Em 10 de agosto de 1792, uma insurreição popular atacou o Palácio das Tulherias. A família real foi retirada do palácio e colocada sob proteção da Assembleia Legislativa, mas a monarquia estava praticamente condenada. Pouco depois, a Convenção Nacional foi eleita e proclamou a República Francesa. Luís XVI deixou de ser tratado como rei e passou a ser chamado simplesmente de "Luís Capeto", referência ao antigo sobrenome dinástico utilizado pelos revolucionários. Em dezembro de 1792 começou seu julgamento. A questão não era apenas determinar se Luís havia cometido crimes específicos, mas decidir se um antigo rei poderia ser julgado por uma república que acabara de nascer. Para os revolucionários mais radicais, a existência de um rei deposto continuava representando uma ameaça política e simbólica à Revolução.

O julgamento de Luís XVI foi acompanhado por uma enorme tensão política. A Convenção Nacional acusou o antigo monarca de conspiração contra a liberdade pública e de contatos secretos com as potências estrangeiras que estavam em guerra contra a França. Entre as provas apresentadas estavam documentos relacionados às atividades políticas da corte e correspondências que sugeriam que Luís havia procurado apoio externo. Seus defensores argumentaram que ele não poderia ser julgado como um cidadão comum, pois sua condição anterior de rei e a Constituição vigente antes da proclamação da República criavam uma situação jurídica excepcional. O advogado Malesherbes, antigo ministro e conhecido defensor das liberdades, participou da defesa do monarca, ao lado de François Tronchet e Raymond de Sèze. De Séze realizou uma defesa eloquente, procurando demonstrar que Luís não poderia ser responsabilizado por todos os acontecimentos ocorridos durante seu reinado. Entretanto, o clima político já estava dominado pelos acontecimentos revolucionários e pela guerra. Em 17 de janeiro de 1793, a Convenção votou sobre a culpa do antigo rei, e uma esmagadora maioria considerou-o culpado. A questão seguinte era decidir qual deveria ser a punição. A votação foi extremamente apertada quanto à pena de morte, mas a maioria acabou optando pela execução. O resultado representou uma ruptura definitiva com a antiga ordem monárquica europeia. Pela primeira vez, uma grande monarquia europeia havia executado publicamente seu próprio soberano deposto em nome da soberania nacional. Para os revolucionários radicais, a execução era necessária para impedir qualquer possibilidade de restauração da monarquia. Para os monarquistas e para muitas cortes estrangeiras, porém, tratava-se de um ato de enorme gravidade, que transformava a Revolução Francesa em uma ameaça ainda maior à ordem política europeia.

Na manhã de 21 de janeiro de 1793, Luís XVI foi conduzido da prisão do Templo até a Praça da Revolução, atualmente a Praça da Concórdia, em Paris. A viagem ocorreu sob forte escolta militar, pois as autoridades temiam uma tentativa de resgate ou uma insurreição em favor do antigo rei. Segundo os relatos contemporâneos, Luís permaneceu relativamente sereno durante o trajeto. Ao chegar ao local da execução, encontrou a guilhotina cercada por soldados e por uma multidão. O carrasco era Charles-Henri Sanson, membro de uma família de executores que atuava em Paris havia gerações. Luís teria declarado que morria inocente dos crimes de que fora acusado e procurado falar ao povo, mas o ruído dos tambores e a movimentação dos soldados dificultaram suas últimas palavras. Pouco depois, foi colocado na guilhotina e executado. Tinha 38 anos. O acontecimento provocou enorme impacto dentro e fora da França. Em Paris, os revolucionários comemoraram o fim definitivo da monarquia, enquanto setores contrarrevolucionários ficaram profundamente chocados. No exterior, a execução contribuiu para a formação de uma coalizão ainda mais determinada a combater a República Francesa. A Grã-Bretanha, a Espanha, a Holanda e outros países passaram a enfrentar a França revolucionária com maior intensidade. A morte do rei também teve consequências pessoais devastadoras para sua família. Maria Antonieta permaneceu presa no Templo por algum tempo e depois foi transferida para a Conciergerie, sendo guilhotinada em outubro de 1793. O filho mais velho sobrevivente do casal, Luís Carlos, passou a ser considerado pelos monarquistas como Luís XVII, embora jamais tenha reinado efetivamente.

A execução de Luís XVI tornou-se, portanto, muito mais do que a morte de um indivíduo: ela simbolizou a destruição da monarquia francesa tradicional e a transformação radical da sociedade e do Estado. A partir daquele momento, a Revolução entrou em uma fase ainda mais intensa, marcada pela guerra externa, pelas revoltas internas e pelo crescimento da influência dos jacobinos. Poucos meses depois da execução, a França mergulharia no período conhecido como Terror, durante o qual milhares de pessoas seriam condenadas à morte sob acusações de contrarrevolução. A própria Revolução acabaria devorando muitos de seus principais protagonistas, incluindo Robespierre, executado em 1794. A morte de Luís XVI também continuaria sendo lembrada durante todo o século XIX. Quando os Bourbons foram restaurados ao trono em 1814, e novamente em 1815 após a derrota de Napoleão, Luís XVI passou a ser apresentado pelos monarquistas como um soberano martirizado pela Revolução. Em 1815, seus restos mortais e os de Maria Antonieta foram transferidos para a Basílica de Saint-Denis, tradicional necrópole dos reis franceses. Historicamente, Luís XVI permanece uma figura complexa. Não foi o tirano sanguinário que a propaganda revolucionária muitas vezes apresentou, mas também não conseguiu compreender a dimensão da transformação política que ocorria diante de seus olhos. Sua indecisão, suas tentativas contraditórias de preservar a autoridade real e sua fuga para Varennes contribuíram para sua queda. Ao mesmo tempo, sua execução demonstrou que a Revolução Francesa havia ultrapassado definitivamente o projeto de reformar a monarquia. Na Praça da Revolução, em 21 de janeiro de 1793, não morreu apenas Luís XVI: morreu simbolicamente uma tradição política que havia governado a França durante séculos

Revolução Francesa: A Morte do Delphin

Revolução Francesa: A Morte do Delphin
Luís Carlos, conhecido posteriormente como Luís XVII, foi o segundo filho homem de Maria Antonieta e do rei Luís XVI, e sua curta vida esteve diretamente ligada aos acontecimentos mais dramáticos da Revolução Francesa. Ele nasceu em 27 de março de 1785, no Palácio de Versalhes, recebendo o título de duque da Normandia. Como filho do casal real, cresceu cercado pelo luxo e pelos privilégios da corte, mas sua infância seria brutalmente interrompida pela Revolução de 1789. Seu irmão mais velho, Luís José, que era o herdeiro direto da coroa, morreu em 1789, aos sete anos, vítima de uma doença óssea. Com isso, Luís Carlos tornou-se o delfim da França, passando a ser o segundo na linha sucessória. Quando seu pai foi executado em janeiro de 1793, os monarquistas passaram a considerá-lo rei da França, sob o nome de Luís XVII, embora ele jamais tivesse efetivamente governado. A partir daquele momento, sua existência tornou-se uma questão política, pois sua simples presença representava, para os partidários da monarquia, a continuidade da dinastia Bourbon.

Depois da queda definitiva da monarquia, a família real foi encarcerada na Torre do Templo, uma antiga fortaleza medieval localizada em Paris. Luís Carlos inicialmente permaneceu junto de sua mãe, Maria Antonieta, de sua irmã Maria Teresa Carlota e de sua tia, Madame Isabel. Para a criança, entretanto, a vida na prisão foi profundamente diferente daquela que havia conhecido em Versalhes. Ele perdeu progressivamente os contatos com o mundo exterior, enquanto seus pais enfrentavam julgamentos e acusações políticas. Maria Antonieta foi separada do filho em julho de 1793, quando os revolucionários decidiram colocá-lo sob os cuidados de um tutor. Pouco tempo depois, ela foi transferida para a Conciergerie e posteriormente executada, em 16 de outubro daquele ano. Luís Carlos tinha apenas oito anos e não voltou a ver a mãe. O menino permaneceu então sob a responsabilidade de Antoine Simon, um sapateiro ligado à Comuna de Paris, que recebeu a tarefa de cuidar dele. Existem relatos posteriores de que Simon teria submetido o menino a maus-tratos e tentado fazê-lo repetir acusações contra sua própria mãe.

A situação de Luís Carlos tornou-se ainda mais dramática quando Simon deixou a Torre do Templo em janeiro de 1794. A criança passou a permanecer praticamente isolada em um quarto, sob vigilância permanente dos guardas. As condições de higiene eram extremamente precárias, e seu estado físico deteriorou-se rapidamente. Durante o período do Terror, os revolucionários tinham pouco interesse em preservar adequadamente a saúde de um menino que representava uma ameaça potencial à República. Luís Carlos sofria de uma doença que provocava inchaços e lesões no corpo, provavelmente tuberculose ganglionar, embora o diagnóstico exato continue sendo discutido pelos especialistas. Sua alimentação e higiene eram inadequadas, e ele recebeu pouca atenção médica. Em janeiro de 1795, médicos enviados para examiná-lo constataram que sua saúde estava gravemente comprometida. O menino estava extremamente debilitado, pálido e sofria de dores constantes. Sua condição piorou rapidamente durante os meses seguintes, até que ficou praticamente impossibilitado de deixar a cama.

Luís Carlos morreu na Torre do Templo em 8 de junho de 1795, aos dez anos de idade. A causa oficial da morte foi inicialmente associada a uma forma de tuberculose, embora posteriormente tenham surgido inúmeras teorias de que o menino pudesse ter sido assassinado ou substituído secretamente por outra criança. Essas histórias deram origem ao chamado "mistério de Luís XVII", que permaneceu durante mais de dois séculos. Como seu corpo foi enterrado rapidamente em uma vala comum e não houve uma identificação adequada dos restos mortais, diversos impostores surgiram posteriormente afirmando ser o príncipe sobrevivente. Um dos mais famosos foi Karl Wilhelm Naundorff, que conseguiu convencer algumas pessoas de que era Luís XVII. A questão permaneceu controversa durante muito tempo, até que análises de DNA realizadas no século XX demonstraram que o coração tradicionalmente preservado como pertencente ao menino apresentava compatibilidade genética com a família de Maria Antonieta. A evidência genética ajudou a confirmar que Luís Carlos realmente havia morrido na prisão em 1795, encerrando grande parte das especulações sobre sua sobrevivência.

A morte de Luís XVII representa um dos episódios mais trágicos da Revolução Francesa, pois ele era apenas uma criança que se tornou símbolo de uma disputa política que estava muito além de sua compreensão. Após a execução de Luís XVI e Maria Antonieta, o menino permaneceu como uma espécie de rei simbólico para os monarquistas franceses, embora nunca tivesse exercido qualquer poder. Sua morte encerrou, na prática, a existência do último herdeiro direto de Luís XVI e Maria Antonieta, ainda que sua irmã Maria Teresa tenha sobrevivido à Revolução. Em 1814, após a restauração dos Bourbon, seu tio Luís XVIII assumiu o trono francês e manteve oficialmente a numeração de Luís XVII, reconhecendo-o como rei de direito apesar de nunca ter reinado. O destino de Luís Carlos tornou-se posteriormente uma das histórias mais comoventes associadas à Revolução Francesa. Sua infância interrompida, o encarceramento, a separação da mãe e a morte solitária transformaram-no em um símbolo da brutalidade dos conflitos políticos. Mais de dois séculos depois, Luís XVII continua sendo lembrado como o menino que nasceu para ser rei, mas morreu prisioneiro aos dez anos de idade.

Maria Antonieta - A Última Carta

Maria Antonieta
Maria Antonieta foi a última rainha da França. Ela e seu marido, o rei Luís XVI, foram decapitados pelos líderes da revolução francesa. Tudo embasado em um julgamento claramente parcial e injusto, que tinha como objetivo apenas matar os monarcas do antigo regime. Maria Antonieta, em seu últimos momentos, se agarrou em sua fé católica e escreveu uma carta de despedida para sua irmã, onde reafirmava sua crença na religião católica, naquele momento final de extrema tragédia. Nesse texto ele pede perdão a Deus pelas coisas erradas que teria feito em vida e pedia ao seus filhos que não se vingassem dos revolucionários pois apenas a Deus caberia a justiça.

Ela foi muito difamada e caluniada, crimes horríveis lhe foram atribuídos, sem nenhuma prova, mostrando que o novo regime que nascia poderia ser tão fanático e radical como os antigos detentores do poder que eles criticavam. Maria Antonieta foi assim transformada em um bode expiatório da revolução francesa, um momento muito cruel para a religião católica pois muitos membros do clero foram assassinados brutalmente, de forma sumária, pelos revolucionários. O chamado "Terror" levou quase todo o clero francês para a guilhotina. Houve certamente uma perseguição religiosa brutal contra a fé e o cristianismo naquele momento trágico. Vários padres, bispos, monges, freiras e religiosos em geral eram colocados em carroças, sendo levados para a guilhotina em longas procissões onde o povo enfurecido lhes diziam ofensas, calúnias e injúrias.

O grau de fanatismo louco da revolução francesa foi tamanho que chegou-se a acusar a rainha até mesmo de incesto, algo que era uma grande mentira. O pior de tudo é que todos sabiam que era uma mentira, mesmo assim condenaram a rainha Maria Antonieta para ser executada, onde ela seria decapitada de forma cruel. A rainha porém mostrou-se muito lúcida em seus momentos finais, não blasfemando, não devolvendo as ofensas, mesmo tendo sofrido todos os tipos de violências físicas e psicológicas. Seus filhos haviam sido tirados dela, seu filho, o herdeiro da coroa, morreria logo após. Era uma criança apenas, mas os revolucionário o jogaram em um calabouço imundo.

Hoje em dia a figura de Maria Antonieta é muito associada ao luxo, à moda, aos exageros do palácio de Versalhes. A rainha foi realmente exuberante, já que isso era uma característica da época, porém ela também foi esposa e mãe, que sofreu muito ao ver sua família ser dizimada por loucos revolucionários com sede de sangue. Mesmo que a dinastia Bourbon fosse destronada era no mínimo civilizado deixaram Maria Antonieta e sua família irem embora para a Áustria, sua terra natal (ela era filha da imperatriz Maria Tereza). Matá-los, inclusive seus filhos pequenos, que eram apenas crianças quando a monarquia foi deposta, só mostrava mais uma faceta violenta de uma revolução que a despeito de usar o slogan da "Liberté, Egalité, Fraternité" (Liberdade, igualdade, fraternidade) certamente cometeu muito crimes contra católicos e pessoas religiosas em geral. Sob o ponto de vista religioso a revolução francesa foi sanguinária, injusta e bárbara. 

Na última noite de vida a Rainha escreveu para a irmã e encerrou sua carta de despedida com as seguintes palavras: "Morro na religião Católica Apostólica Romana, que foi a de meus pais, que me trouxe a vida e que sempre professei. Não havendo nenhum consolo espiritual para procurar, e nem ao menos sabendo se existem nesse lugar padres dessa religião (realmente o lugar onde estou os exporia a perigo demais), eu sinceramente imploro o perdão de Deus por todos os pecados que eu possa ter cometido durante a minha vida. Confio que, em Sua bondade, Ele irá aceitar minhas últimas preces com misericórdia, tal como aquelas que eu tenho endereçado a Ele faz tempo, e que irá receber minha alma dentro de Sua piedade."

Pablo Aluísio. 

domingo, 6 de setembro de 2026

Os últimos momentos de Maria Antonieta

Os últimos momentos de Maria Antonieta - Abandonada em uma cela escura, nas mãos de fanáticos da revolução francesa, os últimos momentos da rainha Maria Antonieta foram bem tristes. Os anos de glória, luxo e riqueza de Versalhes e principalmente do Petit Trianon, onde ela realmente foi feliz, havia ficado definitivamente no passado. Os revolucionários executaram o rei Luís XVI em um processo onde nada foi respeitado. Logo os revolucionários que se diziam adeptos dos mais altos valores democráticos não deram nenhuma chance ao rei. Ele foi condenado sumariamente, guilhotinado sem possibilidade de se defender de verdade. Com a execução de seu marido, Maria Antonieta sabia que estava condenada. Ele tentou de todas as formas pedir socorro para seus parentes na Áustria, pois ela era uma arquiduquesa da Casa de Habsburgo, mas ela foi tristemente ignorada. Sua mãe, a imperatriz da Áustria Maria Tereza havia morrido e seus sucessores não pareciam muito dispostos a entrarem em uma sangrenta guerra contra os revolucionários franceses. Assim Maria Antonieta foi abandonada por todos, pelos membros da decaída monarquia, por seus familiares austríacos e até mesmo por suas damas de companhia.

Curiosamente a dignidade da rainha em seus últimos dias conquistou a simpatia de seus próprios carcereiros. Eles decidiram que iriam ajudá-la em uma fuga desesperada. A rainha iria se vestir com o uniforme da guarda, iria para o pátio com seus filhos e depois sairia junto com os soldados de sua prisão. Infelizmente as coisas não deram certo pois uma carta anônima chegou até um fanático revolucionário que descobriu o plano, colocando tudo a perder. Assim a rainha ficou presa definitivamente ao seu destino. Ela tinha especial preocupação com seus dois filhos, Luís Carlos, o herdeiro do trono e Maria Teresa, a filha mais velha. Essa última seria a única a sobreviver às loucuras violentas dos revolucionários franceses. O pequeno Luís Carlos morreria no cárcere, em uma morte misteriosa que até hoje jamais foi solucionada inteiramente. Ele tinha apenas dez anos de idade e os revolucionários o jogaram em uma cela imunda, subumana, para que morresse de tuberculose ou outra doença qualquer. No final os tais revolucionários que vivam pregando o refrão de "solidariedade, fraternidade e solidariedade" não passavam de assassinos frios, que matavam até mesmo crianças apenas pelo fato delas serem herdeiras de uma monarquia que não mais existia.

A revolução francesa que tinha tantos ideais não soube respeitar os direitos mais básicos da rainha Maria Antonieta. Ela foi aprisionada junto com os filhos em uma cela sombria. Quais tinham sido os crimes de seus filhos? Onde estavam os princípios tão elevados da revolução francesa? Por que eles foram encarcerados? Que crimes cometeram? Nem a própria rainha havia sido acusada de nada. Ela simplesmente foi presa por ser a esposa do rei Luís XVI. Os processos que seriam movidos depois contra a rainha foram baseados em puro ódio, sem a presença de provas. Um absurdo. Nos últimos dias as atrocidades continuaram. Maria Antonieta sempre era acordada tarde da noite para a entrada de guardas dando ordens e assustando ela e as crianças. Pior aconteceu depois quando armaram um teatro bufo em um tribunal francês para acusá-la sem provas. Ela foi acordada durante a madrugada e levada para longe de seus filhos. Pode haver algo mais absurdo do que isso? Seu filho, o Delfim, herdeiro do trono, foi colocado em outra cela (sem qualquer acusação criminal). Maria Antonieta ficou desolada. Tudo o que ela conseguia ver era a sombra de seu pequeno filho brincando no pátio pela pequena janela de sua cela. Era um menino de apenas 10 anos de idade, preso em uma prisão medieval, sem direito a defesa e nem liberdade.

Onde estavam os direitos do homem, tão propagados pela revolução francesa naquele quadro desolador? O pior é que Maria Antonieta também foi abandonada por seus familiares austríacos. A casa de Habsburgo a abandonou embora ela ainda fosse uma arquiduquesa austríaca legítima, filha da imperatriz Maria Teresa, que infelizmente já tinha falecido naquela ocasião. Provavelmente se estivesse viva, Maria Teresa faria de tudo para salvar sua filha Maria Antonieta e seus dois filhos. Infelizmente os que estavam no poder durante seu martírio pouco deram atenção ao seu sofrimento. Uma rainha francesa decaída não tinha mais importância para Viena. No fim Maria Antonieta não parecia mais ter forças. Ela simplesmente havia aceitado seu destino trágico. Ela sabia que seria morta pela revolução, tal como havia acontecido com o Rei Luís XVI. O único que lutava bravamente em favor da rainha era o conde Hans Axel von Fersen. Dito por muitos historiadores como o verdadeiro amor da vida de Maria Antonieta, ela passou dias e mais dias tentando convencer os membros da corte de Viena para que salvassem a rainha. O mais absurdo de tudo é que os revolucionários pareciam dispostos a negociar pela vida de Antonieta, mas os membros da casa Habsburgo pareciam ter lavado as mãos.

Pablo Aluísio.